terça-feira, 17 de abril de 2018

Conto: Um momento para Marília




Os anos se passaram e Marília quase não os viu ir ou vir, não sei. Em uma manhã ensolarada a moça acorda animada, suas férias começam hoje. Sim, parece que se passaram anos desde suas últimas férias, o descanso não lhe é algo aproveitado. Marília é aquele tipo de mulher rápida, inteligente, antenada, ligada no café de extremo produtiva. Mas por alguma razão, naquela manhã ela não era Marília a mulher de todos os dias, ela era uma mulher diferente.

Levanta-se devagar a esfregar os olhos, sente-se cansada com o peso de algo nas costas. Um peso enorme. O peso da solidão. A solidão a sua volta é palpável, penetrante, ardida. Naquela manhã Marília se deu conta do que a muito não via, sua solidão era insuportável. Diante do espelho ela se olhava admirada, quanto tempo se passara? Trinta anos, puxa uma vida inteira! Aqueles detalhes não estavam lá. Os olhos dela percorriam o rosto em busca da jovem de anos atrás. Aquelas linhas próximas a sua janela da alma, não, são novas. Como surgiram? Era sua expressão. Como surgiram? Quando surgiram? Não sei dizer.

Ah o tempo, seu mentiroso. Passa tão rápido que não o vemos passar. A mulher agora examina novos sinais próximo ao buço, hum... Aquele tal bigode chinês. O tempo a mudara, o tempo realmente a enganara. Eternidade era o que a fazia correr sem olhar para os lados. Eternidade... Que maldade! A eternidade não é uma realidade, se deu conta. E o que eu fiz? Pensava Marília. Quem eu amei? Lamentava Marília. Não eram apenas os sinais em sua pele que evidenciavam o passar do tempo, dentro de si a mulher, agora nova, fazia perguntas as quais eram profundas e nunca havia tido tempo para questionar.

Por que hoje? Por que agora? Marília caminha de camisola até a janela do seu quarto e do alto com olhos semicerrados observa o sol, abraça o próprio corpo em consolo. Ontem foi meu aniversário.





By Danielle Rodrigues